2# ENTREVISTA 22.4.15

KEVIN FROST - "SOU GAY E TIVE MEDO DE MORRER DE AIDS"
O presidente da amfAR, fundao para pesquisas em HIV, conta como se tornou ativista. Ele reune estrelas internacionais em bailes beneficentes para obter doaes e aposta US$ 100 milhes na cura em cinco anos
por Gisele Vitria 

EM SO PAULO - "Contei a Cher que o Brasil  um dos lderes na luta contra a Aids"

Depois do baile, as luzes se apagam, o glamour desaparece e  hora do americano Kevin Frost arregaar as mangas. O 5o Inspiration Gala da amfAR (Fundao de pesquisa para a Aids), em So Paulo, levou a veterana atriz americana Cher ao palco armado na manso do empresrio Dinho Diniz, na noite de sexta-feira 9. Assim como ela, o estilista Jean Paul Gautier foi homenageado. Naomi Campbell foi co-hostess. Kyrlie Minogue levantou a plateia black tie com seu pocket show. Kate Moss ferveu no palco da boate after party, at as trs horas da manh. Juliana Paes, Sabrina Sato e Deborah Secco esquentaram o leilo beneficente. Uma fotografia de Elizabeth Taylor, clicada em 1962, pelo fotgrafo Bert Stern nos bastidores das filmagens de Clepatra foi arrematada por US$ 55 mil.

"Liz Taylor, nossa co-fundadora h 29 anos, era fantstica. No baile em So Paulo, leiloamos uma foto dela como Clepatra, arrematada por US$ 55 mil"

O baile arrecadou US$ 1,8 milho. Nessa passagem pelo Brasil, Frost se impressionou com a euforia dos brasileiros em receber Cher, estrela americana, h 50 anos, e uma das divas do movimento gay. Ela  estrela de verdade. Frost conta que assistiu ao Summer Cher Show quando tinha oito anos de idade. Mas, no encontro no Brasil, no disse isso para a atriz. s vezes, fico nervoso em fazer algum se sentir mais velho. Imagine, tenho 52 anos e seria horrvel comentar uma coisa assim com ela. Quase 30 anos depois de Elizabeth Taylor ter ajudado a fundar a amfAR, em 1986, cabe agora a esse ex-aspirante a cantor de pera mobilizar celebridades e doadores ao redor do mundo. Neste ano, ele anunciou investimentos de US$ 100 milhes e aposta na cura da Aids, at 2020. O desafio  ambicioso e no tem garantia. Mas  melhor tentar e falhar do que nunca tentar, diz Frost. 

"No Brasil, um gay  morto a cada 28 horas. Ser gay e viver com Aids ainda continua sendo um estigma opressivo"

Isto - Como os recursos doados a amfAR contribuem para o avano das pesquisas em Aids?

Kevin Frost - Quando as pessoas apoiam uma organizao de pesquisa, elas do suporte a um plano de longo prazo.  diferente de ajudar uma organizao de apoio s vtimas, que fornece comida, casa e servios para pessoas soropositivas com importantes necessidades imediatas. A contribuio nestes cinco anos de amfAR, no Brasil,  de extrema importncia. Estamos empenhados em resolver a epidemia de uma vez por todas. Queremos encontrar a cura. O investimento em pesquisa requer tempo. Temos de apoiar esse tempo. Se encontrarmos a cura,  a cura para todos. No s para os ricos ou para um grupo. 

Isto -  difcil falar em cura da Aids. O HIV  um vrus mutante, com esconderijos dentro das clulas. No se trata s de investimento em pesquisas, mas de uma luta com intrincados desafios para a medicina. Como acreditar na cura em cinco anos, como prope a amfAR?

Kevin Frost - Como acreditar... Sim,  realmente um desafio. Mas vamos lembrar tudo que j ultrapassamos. H 25 anos, nos perguntvamos: o que  isso? Ok,  um vrus. Como ele infecta? Ataca o sistema imunolgico. Agora, a pergunta : como se ataca um vrus que muda dentro da clula? Estamos aprendendo cada vez mais. Lembre-se de que h casos de infectados que foram curados (com nveis indetectveis do vrus h anos). Esses pacientes nos ensinaram sobre o caminho para a cura.  com essas pessoas que aprenderemos a curar.  possvel acreditar na cura em cinco anos? Eu acredito. Posso garantir? No. Mas  melhor tentar e falhar do que nunca tentar. 

Isto - Quais foram as descobertas cientficas apoiadas pela amfAR? 

Kevin Frost - Nunca foram muitas. Nos primeiros anos da epidemia, apoiamos um estudo pioneiro da cientista Ruth Ruprecht, de Harvard, na preveno da transmisso do HIV de me para filho, com uso de drogas anti-virais. Hoje, prevenimos a transmisso em recmnascidos. H outro estudo daquela poca em que descobriu-se como o vrus entra na clula. A molcula de entrada, CCR5, fica na superfcie da clula e h pacientes que tm uma mutao celular e no apresentam o CCR5. Sem este receptor, o vrus no entra na clula e as pessoas ficam imunes. Essa descoberta nos fez entender como uma pessoa pode ser curada. O caso de Tim Brown (executivo americano, conhecido como o Paciente de Berlim, foi a primeira pessoa considerada curada do HIV, aps tratamento na Alemanha)  exemplar. Ele precisava de transplante de clulas tronco e achou um doador sem CCR5. Ele no foi reinfectado e est imune h anos.

Isto - E os tratamentos?

Kevin Frost - Das seis classes de drogas que tratam pessoas com HIV, quatro delas encontraram a sua rota nas pesquisas apoiadas pela amfAR, como os inibidores de protease, por exemplo. A amfAR ajudou a financiar o desenvolvimento dessas drogas. O primeiro modelo de como o HIV ataca as clulas foi apoiado por ns e ajudou a desenvolver as drogas. Voc tem de entender a estrutura do vrus e da clula CD4 (do sistema imunolgico) para a achar o tratamento. Levamos 10 anos para entender isso.

Isto - Que pesquisas patrocinadas esto perto de serem transformadas em descobertas?

Kevin Frost - H muitas frentes.  como uma corrida. Temos 250 pesquisas ativas sendo patrocinadas. Cientistas competem entre si para realizar descobertas na Austrlia, na sia, na China, na ndia, nos Estados Unidos e no Brasil. So centros de pesquisas em Harvard, nas universidades em Sidney e Melborne, na London School, na Inglaterra, no Instituto Pasteur, na Frana. 

Isto - Qual  o critrio de distribuio do dinheiro arrecadado? 

Kevin Frost - Temos um grupo cientfico que cuida disso. Perguntamos quanto de dinheiro temos e qual  a pesquisa cientfica para a qual deve ser endereado aquele recurso. Nosso grupo de cientistas faz um relatrio para outro grupo independente. Eles revisam e estabelecem um ranking de prioridades, que seguimos.  

Isto - O que o sr. contou a Cher sobre a Aids no Brasil?

Kevin Frost - Passamos trs horas jantando no restaurante Fasano, na vspera do baile. Contei que o Brasil tem sido um lder na luta contra a Aids. O Brasil fornece tratamento e fabrica medicaes, o que tem um efeito profundo no combate  doena aqui. O Brasil mostrou a outros pases que pode administrar a epidemia de uma maneira proativa. O desafio  que os tempos esto difceis. A economia est mudando e os primeiros cortes so nos programas sociais. Espero que os problemas sejam breves. O Brasil est to bem na luta contra a Aids que seria triste se as coisas regredissem. 

Isto - A amfAR apoia o Instituto Evandro Chagas, no Rio de Janeiro. Como avalia o estudo aqui?

Kevin Frost -  uma pesquisa interessante e s existe no Rio. Aprendemos que dar drogas retrovirais a pessoas no infectadas pode prevenir a Aids. Isso foi testado em heterossexuais. O estudo feito no Rio  focado em casais gays. Na pesquisa, um parceiro  HIV positivo e o outro  HIV negativo. A pergunta : tratar o indivduo HIV positivo previne a contgio do parceiro HIV negativo? 

Isto - O estigma da Aids mudou?

Kevin Frost - s vezes acho que est melhor, outras vezes sinto que est piorando. Muita gente no foca no que  realmente importante na vida. Me refiro a alguns polticos e pessoas extremamente religiosas. O estigma da Aids  significativo. Pessoas com a doena enfrentam discriminao. Muitos infectados encaram o estigma s por serem gays. No Brasil, um homem gay  morto a cada 28 horas. Mais de trs mil por ano so mortos. Isso  um tremendo estigma social que paira sobre ser gay. Viver com Aids na sociedade continua opressivo. E  s uma doena.  s, vrus. Mas as pessoas no vem assim.

Isto - O Ministrio da Sade apontou, em suas ltimas pesquisas, o aumento de casos de Aids, no Brasil entre homossexuais e jovens. Por que?

Kevin Frost - O problema acontece em outros pases e isso  uma falha na preveno. H preconceito com campanhas para o pblico homossexual. E os jovens precisam de uma comunicao honesta sobre os riscos. 

Isto - Pesquisas mostram que o uso da camisinha  aqum do esperado. 

Kevin Frost - H complexidades na vida sexual das pessoas. Nem todo mundo vai usar preservativo. Muitos no querem. A estratgia de prevenir a Aids assim, est sujeita a falhas.  preciso avanar nisso, aprofundando a eficincia dos antirretrovirais.

Isto - Como se tornou lder da amfAR? O sr. estudava msica...

Kevin Frost - Por acidente. No era o que pretendia fazer da vida. Eu estudava msica e queria ser cantor de pera. Mudei para Nova York, em 1990, era uma poca terrvel. A Aids estava em todos os lugares. Pessoas morriam. Os hospitais estavam superlotados. Alguns deles no aceitavam pessoas com Aids. Sou gay e vi isso acontecer. Tive medo de morrer. Mas me apropriei daquela responsabilidade. Me tornei ativista e comecei a trabalhar em um hospital de Nova York, como voluntrio. H 21 anos, entrei para a amfAR como assistente do diretor no escritrio em Nova York. Simplesmente fui ficando. 

Isto - O sr. conviveu ou trabalhou com a Elizabeth Taylor?

Kevin Frost - Quando Liz era viva, eu ainda no era CEO da amfAR. Pude encontr-la, mas no a conhecia bem. Ela era fantstica. No gala em So Paulo, leiloamos uma foto dela como Clepatra. Com a ajuda de Liz, a amfAR completa 30 anos em 2016. Mas a organizao  mais antiga. Em 1983, era Aids Medical Foudation (AMF), em Nova York. Em 1985, Rock Hudson morreu e foi uma comoo. Em 1986, nos unimos a National Aids Research Foudation, de Los Angeles, e virou um grupo s.

Isto - O sr. perdeu pessoas?

Kevin Frost - Muitas. Como meu colega de faculdade, Kevin. Estava morando em Dallas, no Texas, e trabalhando  para a companhia de pera. Ns dividamos o mesmo quarto e ele era o diretor de palco. Ele ficou doente muito rapidamente, e a gente no sabia por que. Em dois meses, ele morreu. Ele nunca disse que tinha Aids e ficou com muito medo, foi para o hospital porque tinha pneumonia e morreu. Eu tenho 30 histrias como essa, de amigos que morreram. 

Isto - E o sr. tinha medo que pudesse lhe acontecer isso?

Kevin Frost - Todo mundo tinha. Todo gay em Nova York. Havia um sentimento de que a epidemia mataria todos ns. Ningum estava seguro. Eu senti a Aids como uma ameaa real. Me tornei ativista para ajudar pessoas com Aids, mas reconheo que estava fazendo aquilo por mim. Eu acreditava que em algum momento eu ia ter Aids e morrer. Achava que se tornaria realidade. Mas de algum jeito no aconteceu. Isso foi sorte, simplesmente sorte.

